"O Professor Fabiano Cotrim, desde 1990, mantém um quadro de crônicas na Rádio Educadora Santana de Caetité que é muito ouvido e comentado na cidade. Levado ao ar nas manhãs das segundas, quartas e sextas-feiras Invariavelmente terminam as crônicas matinais com a oferta de uma rosa vermelha e votos de bom dia. Optamos por publicar nesta seção os textos como eles são escritos originalmente, isto é, para serem lidos no rádio."

Fogos?

 

Domingo, 22 de fevereiro de 2010

Para tratar desse assunto, por respeito aos envolvidos, deixei passar um tempo que julgo ser razoável para a situação, pois o luto deve ser respeitado acima de tudo. A dor de quem perde um amigo, um parente, é assunto que a sociedade trata com respeito e reverência desde tempos imemoriais. Assim, para falar sobre a dúvida que paira na cidade desde o dia em que morreu Tota, um conhecido político local, peço também licença aos seus amigos e familiares. E se volto a esse assunto é tão somente por que ele não se remete apenas ao saudoso Tota e aos seus parentes e amigos. Não, se confirmadas as piores suspeitas, é o caso de ter que se preocupar toda a comunidade caetiteense. Mas  vamos aos fatos que geraram a tal dúvida. Na noite em que o corpo de Tota chegava em Caetité, vindo de Salvador, onde faleceu aquele amigo, ouviram-se rajadas intensas e duradouras de fogos de artifício. Como só se ouve por estas bandas em época de política e copa do mundo. A cidade em silêncio, a noite calma, o barulho foi perturbador. Em todos os cantos uma só pergunta se fez, como se o chamado inconsciente coletivo despertasse: por que soltam tantos foguetes a esta hora, nesta noite? Quem solta tantos foguetes justamente a esta hora, nesta noite?       

Sem rodeios, o que todos pensaram foi se os foguetes que ouviam eram sinal de vitória dos opositores políticos de Tota, hoje no poder. Será que comemoravam a partida daquele que há pouco havia lhes combatido em praça pública, nas urnas? Ninguém queria acreditar nessa hipótese, mas todos pensaram nela. E ai é onde entra o triste e o trágico nesse episódio nebuloso. Só o fato de se pensar possível uma coisa tão monstruosa já é o bastante para perceber que alguma coisa vai muito mal na política deste torrão tão amado. Será que então chegaremos a um extremo desses? Ou pior, já chegamos a ele?            

Sinceramente, acredito que os fogos da noite em que Tota morreu não foram soltados como júbilo por ninguém. Quero que tenha sido apenas uma desagradável coincidência. Preciso acreditar que foi assim para continuar vivendo nesta comunidade. Caso contrário, se como acreditam muitos, os fogos daquela noite soaram como gritos de bestas que abatem as suas presas, a vida por aqui seria insuportável. Já pensaram? Viver em um lugar onde a morte do semelhante é motivo de chacota, onde a dor e o luto do semelhante são desrespeitados? E por falar em pensar, o que pensou você, que por acaso também estava em Caetité naquela noite de luto e dor para a família e os amigos de Tota, e pode ouvir as rajadas intensas e duradouras de fogos de artifício, como só se ouve por estas bandas em época de política e copa do mundo?

Fabiano Cotrim